Dupla jornada na vida universitária
Mais da metade dos universitários brasileiros estudam e trabalham, segundo dados preliminares do Estudo Comparado sobre a Juventude Brasileira e Chinesa, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O levantamento, divulgado ontem (6), mostra ainda que entre os que estão no ensino superior, 71% estudam até 10 horas por semana, além da sala de aula. Desses 37,1% dedicam menos de cinco horas para essa finalidade. Segundo o técnico em Planejamento e Pesquisa da Disoc do Ipea, Eduardo Luiz Sen, ao analisar os dados é possível perceber que existe uma dedicação menor entre os que estudam nas universidades particulares.
"Isso se deve muito ao tipo de curso oferecido entre as instituições, mas achamos que também tem relação com a situação de trabalho dos jovens", disse Zen. Além dos 52% que declararam exercer algum tipo de trabalho remunerado, 13,3% estão desempregados. "Há um tempo era menor esse percentual de jovens que conciliavam emprego e educação", avalia o pesquisador.
O diretor do programa de mestrado e doutorado em educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), Afonso Celso Danus Galvão, reconhece que, em algumas formações, o trabalho é complementar, como no caso da medicina. Ele, entretanto, ressalta que, de modo geral, o universitário estuda muito mal e isso interfere no seu desempenho. "Sabemos que essa dedicação é menor entre os que trabalham, porque eles têm menos disponibilidade de tempo para estudar", atestou.
Estudante do 7º período de biblioteconomia na Universidade de Brasília (UnB) e estagiária na biblioteca do campus de Planaltina, Larissa Cavalcanti é um exemplo de universitária que leva dupla jornada. Ela, porém, confessa que, quando chega perto do fim do semestre, bate a vontade de desistir. "Ficar o dia fora e ainda ter que estudar até tarde cansa e tem horas que dá vontade de largar tudo e me dedicar só aos estudos", relata. Mas ela acredita que o trabalho é essencial para complementar a formação universitária. "Existem muitas coisas que só aprendemos na prática", afirma.
Larissa faz parte ainda de outra estatística do levantamento. Os pais dela têm ensino superior e reconhecem a importância da graduação. O estudo ressalta que, quanto maior o nível de escolarização dos pais, maior a chance de o filho ingressar nessa etapa da educação. "Os que têm pós-graduação são quase residuais na população brasileira, entretanto, pelo menos um dos pais de 22,7% dos alunos chegou à pós", destacou Sen.
A pesquisa ouviu 2,4 mil alunos com até 24 anos de universidades públicas e privadas do Distrito Federal e de São Paulo.
Correio Braziliense