Programa do governo cria incentivos para dobrar festas literárias
RIO - No momento em que o tablet e outros aparelhos que permitem a leitura virtual começam a ganhar espaço inédito no mercado, o governo anunciou, há poucas semanas, a criação do Circuito Nacional de Feiras do Livro. O objetivo, segundo a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), é dobrar o número de eventos do gênero no país em dois anos. Atualmente, realizam-se por ano 75 feiras, festivais e jornadas literárias com as mais diversas características, incluindo a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), cuja 9ª edição acontece entre esta quarta e domingo.
Apesar da maior presença do livro eletrônico, o que poderia enfraquecer os eventos baseados na venda de obras impressas, o presidente da FBN, Galeno Amorim, não vê contradição. “O aumento da venda do livro em papel e o do e-book vão acontecer ao mesmo tempo no país”, afirma. Dos 95 milhões de leitores nacionais, diz Amorim, somente 36 milhões compram livros e a média anual não passa de 1,1 por pessoa. Além disso, o país teria 77 milhões de não leitores, ou seja, uma base muito grande para crescimento.
O diretor comercial da editora Cosac Naify, Jaime Mendes, elogia a medida do governo e acredita que essas feiras poderão permitir que a atual produção de livros no país – de 88 títulos novos por dia útil no ano, segundo dados que cita de 2009 – “seja vista e comprada pelos novos leitores, principalmente os que ascenderam economicamente, a nova classe C”.
Galeno Amorim afirma estar empenhado em “oferecer livros que caibam no bolso da classe C”. A FBN está criando um programa de livro popular, que, por meio de editais para o mercado, terá como objetivo produzir títulos de até R$ 10 para atender a esse segmento. São obras que ganharão destaque no circuito das feiras. “O Estado está cumprindo o seu papel de fomentar a leitura. Vamos aproveitar as várias ações para que a Biblioteca Nacional seja itinerante e tenha uma atuação descentralizada, levando políticas públicas para os municípios”, diz Amorim.
“Existe uma clara preocupação em levar o livro para cidades com poucas livrarias, tendo em vista que estas se concentram nas capitais, em especial nas regiões Sudeste e Sul”, completa o diretor da Cosac. As editoras, entretanto, não têm como arcar sozinhas com as despesas de participação em feiras de norte a sul do país. Nem mesmo as bienais de livro, no Rio ou em São Paulo, onde elas participam diretamente, costumam ser economicamente viáveis.
“A conta não fecha devido aos elevados custos do evento, pois vende-se muito livro”, explica Mendes. Já nas feiras menores, não há como manter equipes em localidades distantes da sede das editoras, localizadas em sua maioria no Sudeste. “Por isso, essas feiras serão uma oportunidade muito interessante para as editoras divulgarem e venderem seus títulos através de parcerias com livrarias locais”, acredita Jaime Mendes.
Nos últimos dez anos, destaca o consultor sobre políticas de leitura e antropólogo Felipe Lindoso, “houve uma proliferação impressionante de encontros literários no país, que dependem também de uma programação cultural variada”. A criação do Circuito Nacional de Feiras do Livro dá uma espécie de chancela oficial a esse movimento.
Boa parte desses eventos – como a própria Flip – já ocorre com o auxílio proporcionado pela Lei Rouanet. No entanto, para facilitar o enquadramento na legislação, uma das primeiras medidas da gestão de Galeno Amorim – à frente da FBN desde o início do ano – foi estabelecer o mínimo de 51% de atividades relacionadas ao livro para que o evento fosse considerado literário. Assim, o patrocinador tem possibilidade de abater 100% no Imposto de Renda do valor investido. “Essa mudança foi importante. Cerca de R$ 35 milhões foram enquadrados no ano passado para feiras de livros e a estimativa para este ano é ampliar este valor. Mas o circuito vai muito além da mudança na lei”, afirma o presidente da FBN.
O “pacote” prevê investimentos de R$ 2 milhões anuais numa Caravana de Escritores, para levar autores a localidades de todo o país, e mais R$ 3 milhões, do Fundo Nacional de Cultura, destinados a Estados e municípios com interesse em criar feiras em cidades pequenas e médias. Além disso, o Circuito envolverá outras áreas do Ministério da Cultura, como a Funarte e a Secretaria do Audiovisual. A FBN também planeja realizar oficinas de formação de professores e encontros de bibliotecários. “Queremos criar agentes multiplicadores da leitura”, reitera Galeno Amorim.
Porém, na opinião de Tania Rösing, coordenadora geral da Jornada Nacional de Literatura, realizada bienalmente desde 1981 em Passo Fundo (RS), o novo Circuito de Feiras do Livro – positivo, diz, por permitir “maior visibilidade ao que as editoras oferecem” – corre o risco de somente “referendar o passado” se não houver esforços para estimular a leitura em novos suportes.
“Os jovens estão usando a tecnologia, e precisamos aproximar os professores da experiência de leitura desses jovens. É necessário viabilizar o domínio da tecnologia. Muitos professores não passaram nem mesmo pelo processo tradicional de leitura e agora já terão de entrar no livro eletrônico. As feiras, as festas e as jornadas literárias precisam estar antenadas não ao livro propriamente, mas ao livro em múltiplos suportes”, afirma Tania.