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Nicolelis explica como a mente pode se livrar dos limites do corpo

Publicado em 5 de Julho de 2011 Por ADURN Sindicato

É possível libertar a mente dos limites do corpo? Para o neurocientista Miguel Nicolelis, a resposta é sim. Essa é a ideia da pesquisa desenvolvida por esse paulistano, palmeirense fanático, fundador e diretor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, explicada no livro “Muito Além do Nosso Eu – A nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas”, lançado ontem à noite, no Teatro Alberto Maranhão.
“Eu defendo a tese de que, nas próximas décadas, (...) a neurociência acabará expandindo a limites quase inimagináveis a capacidade humana, que passará a se expressar muito além das fronteiras e limitações impostas tanto por nosso frágil corpo de primatas como por nosso senso de eu”, escreveu o cientista na introdução do livro.
Na obra, Nicolelis descreve suas experiências para tentar decifrar como as redes ou circuitos neuronais – grandes populações de neurônios – produzem toda a variedade de comportamentos especializados e pensamentos gerados pelo cérebro humano.
A partir dos experimentos realizados em laboratório com macacos, Nicolelis desenvolveu o que chamou de interfaces cérebro-máquina (ICM), que são sensores capazes de “ler” e “traduzir” os sinais elétricos produzidos pela atividade cerebral (ou, simplificadamente, os pensamentos) e remetê-los a máquinas diversas, que podem realizar comportamentos motores sem interferência do corpo.
“Você imagina o que quer fazer e um robô realiza esse programa motor só pelo pensamento”, explicou. De acordo com Miguel Nicolelis, em pouco tempo, essa tecnologia poderá ser usada para, por exemplo, fazer tetraplégicos recuperarem seus movimentos.
O neurocientista disse que, juntamente com sua equipe, está construindo uma veste robótica para permitir aos pacientes vítimas de ruptura da medula espinal imaginar o que querem realizar e transferir esses sinais elétricos para o exoesqueleto que, agora, vai operar os movimentos que o paciente quer fazer.
Ele explicou que, quando uma pessoa sofre um acidente com a ruptura da medula espinal, o cérebro continua imaginando os movimentos que gostaria de realizar. Por causa da lesão, esses sinais não são transferidos para a musculatura dela.
A veste robótica – prosseguiu o cientista – será assimilada pelo cérebro do paciente como sendo seu novo corpo, ou uma extensão do próprio corpo dele. “Essa veste será capaz não só de suportar o peso do paciente paralisado como também permitirá que seu corpo até então imóvel volte, livre e de maneira autônoma, a deambular, passear, correr e mais uma vez exultar em explorar o mundo que o rodeia”, definiu, em outro trecho do livro.
Para Nicolelis, o aperfeiçoamento dessa capacidade de traduzir as tempestades elétricas do cérebro vai permitir, num futuro remoto, que a sociedade opte “pela imortalidade do pensamento, em vez da imortalidade corpórea”.
“A era do culto ao corpo está, lentamente, chegando ao fim. No futuro, é provável que a sociedade deixe registrada essa epopeia única que é o conjunto do pensamento de cada ser humano”, empolgou-se, ao descrever o que seria uma espécie de download do pensamento.
Nicolelis ironiza críticos
Depois da conferência de lançamento do livro, ao responder perguntas do público que lotou o Teatro Alberto Maranhão, Miguel Nicolelis ironizou aqueles que o criticam por expor suas opiniões sobre questões políticas e sociais, sob o argumento que, como cientista, deveria se manter “neutro”.
“Eu faço questão de dizer para certos Blogueiros que escrevem besteiras nos finais de semana, sem saber o que dizem, que para cada real que o governo federal investiu nesse projeto, através dos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, nós atraímos para aqui outros dois reais de empresas e organizações internacionais”, declarou.
Ele revelou que, na próxima semana, levará à presidenta Dilma Rousseff o projeto da escola que está construindo em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal, para espalhar essa experiência para outras 12 cidades brasileiras.
Questionado sobre os apoios que recebeu para desenvolver suas pesquisas e projetos no Rio Grande do Norte, Nicolelis mencionou os investimentos e apoio do governo federal, governo estadual e Prefeitura de Macaíba e lamentou que “Natal ainda está tentando entender o que viemos fazer aqui”.
“Eu só tenho uma coisa a dizer para eles: daqui não sairemos”, declarou, num recado direto a setores políticos e sociais que, incomodados com a liberdade com que manifesta suas opiniões sobre o cotidiano natalense e potiguar, tentam desqualificar o trabalho que vem realizando em favor do desenvolvimento da ciência e da educação científica.

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