Operação para salvar bancos dos EUA pode consumir US$ 1 trilhão
O secretário americano do Tesouro, Henry Paulson, informou nesta sexta-feira (19-9) que as medidas que estão sendo preparadas pelo governo para ajudar os bancos vão custar "centenas de bilhões" de dólares. Detalhes do plano serão anunciados só na próxima semana. O senador republicano Richard Shelby estima que o valor total do
socorro chegará a US$ 1 trilhão.
As medidas podem representar a maior intervenção na economia desde a chamada Grande Depressão, que atravessou os anos 1930. Segundo o "Wall Street Journal", no centro do programa está um mecanismo que pode deletar os ativos ruins dos balanços das empresas financeiras. Esses ativos podres seriam adquiridos pelo governo.
Sob o pretexto de evitar uma "crise sistêmica", que a rigor já está instalada, o governo Bush pratica um capitalismo de compadrio, abolindo os riscos inerentes aos investimentos capitalistas, especialmente os especulativos; intensifica a intervenção do Estado, esquecendo a falsa pregação neoliberal e comprometendo os dólares dos contribuintes.
"Estamos falando de centenas de bilhões", indicou Paulson, em entrevista à imprensa sobre o custo do plano para livrar a cara dos bancos e resgatar seus ativos invendáveis, plano que, por sinal, está sendo discutido com o Congresso.
US$ 1 trilhão
"Essa soma precisa ser grande o bastante para fazer uma verdadeira diferença e atingir o coração do problema", acrescentou Paulson.
O senador republicano Richard Shelby, número dois da comissão de assuntos bancários no Senado, estimou que o custo pode chegar a US$ 1 trilhão. "Acredito que vai custar pelo menos US$ 500 bilhões", declarou Shelby ao canal de televisão norte-americano ABC.
"Mas, se olharmos para o que o Federal Reserve já fez, se olharmos para a extensão dos poderes do Tesouro para resolver o problema da Fannie Mae e da Freddie Mac, devemos chegar a aproximadamente US$ 1 trilhão", acrescentou Shelby.
Fontes que participam das conversas, iniciadas na quinta-feira, disseram que está sob análise o estabelecimento de um fundo de US$ 800 bilhões para comprar ativos falidos, entre outros pontos.
Objetivos do resgate
O objetivo do plano é ajudar financeiramente os bancos a adquirir títulos "de alta qualidade" dos fundos monetários, por meio de empréstimos.
O Federal Reserve (FED, banco central dos EUA) anunciou ainda que comprará os títulos de curto prazo emitidos pelos organismos de refinanciamento hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac, assim como os da rede de bancos federais de empréstimos imobiliários (Federal Home Loan Banks).
Henry Paulson anunciou nesta sexta-feira que vai trabalhar no fim de semana com o Congresso sobre uma lei para aliviar as instituições financeiras dos ativos "que sufocam nosso sistema financeiro".
Críticas no Congresso.
"Vou passar o fim de semana trabalhando com os membros do Congresso para examinar medidas que possam amenizar a pressão destes empréstimos ruins de nosso sistema, para que o crédito possa fluir novamente em direção aos consumidores e às empresas americanas", declarou Paulson durante entrevista em Washington.
O líder democrata do Senado, Harry Reid, que faz oposição ao governo, observou que a administração americana ainda não apresentou uma proposta detalhada.
Existe a expectativa de que o acordo contemple a criação de um veículo inspirado na Resolution Trust Corporation (RTC), agência criada em 1989 por um ato do Congresso com a tarefa de liquidar ativos podres. O arquiteto dela foi Richard Breeden, então presidente da Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA).
O jornal britânico "Financial Times" notou que uma nova RTC precisaria de legislação e que um plano desse levaria tempo para ser implementado. Chamou atenção para o fato de que a legislação para a primeira RTC passou em fevereiro de 1989, mas o veículo não começou seu trabalho até agosto. Na avaliação do senador democrata Charles Schumer, a RTC não é o modelo certo para lidar com a crise atual.
Ativos duvidosos
"Estou ansioso para trabalhar com o Congresso para adotar a lei necessária para tirar esses ativos duvidosos de nosso sistema financeiro", afirmou.
Paulson disse que as autoridades agiram "caso a caso" nas últimas semanas, "mas que agora é preciso adotar medidas extras e decisivas para resolver de maneira eficaz as raízes das tensões de nosso sistema financeiro".
"Os ativos hipotecários invendáveis bloqueiam o sistema. O estrangulamento de nossos mercados financeiros tem o potencial para ter efeitos significativos sobre nosso sistema financeiro e sobre nossa economia", declarou.
Recompra de dívidas
O FED anunciou nesta sexta-feira um plano para recompra de obrigações de dívida relacionadas às agências hipotecárias americanas Fannie Mae e a Freddie Mac de certas instituições financeiras.
O FED informou também que pretende comprar das instituições financeiras credenciadas à autoridade monetária (primary dealers) obrigações de dívida de curto prazo, emitidas com um desconto (discount notes) de agências federais, ou obrigações de dívida de curto prazo emitidas pela Fannie Mae e Freddie Mac e dos Bancos de Empréstimo Imobiliário Federal.
Henry Paulson anunciou que os organismos de refinanciamento hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac vão aumentar as compras de títulos atrelados a créditos hipotecários("mortgage-backed securities") e que o Tesouro vai ampliar seu programa de recompra desses mesmos títulos.