Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência faz 65 anos
Era 1977 e o Brasil estava em pleno governo militar. Como todos os anos, desde 1948, data de sua criação, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) procurava uma universidade para fazer seu tradicional encontro anual. Primeiro, foi fechado um acordo com a Federal do Ceará, mas o governo proibiu. O físico Oscar Sala e outros cientistas da SBPC conseguiram, então, transferir o evento para a Universidade de São Paulo. Mas o governador também vetou. Conversa de cá, procura de lá e, enfim, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo abriu as portas para a sociedade. Foi Dom Paulo Evaristo Arns o responsável por permitir que os cientistas se reunissem no campus. Para angariar fundos para o encontro, artistas de peso como Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros, fizeram shows. No dia do tão esperado encontro, os militares foram bater à porta da PUC-SP, mas, lá, eles não conseguiram entrar e não impediram o encontro de acontecer.
O fato resume um pouco a importância da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que completa, no dia 8 de junho, 65 anos. Nascida no pós-segunda guerra, a SBPC foi criada com o objetivo de fomentar as ciências - não só biológicas ou exatas, mas também as humanas e as tecnológicas - em um país onde havia, ainda, pouco espaço para se pensar a ciência. "Ela [a SBPC] nasce em um contexto no qual a ciência, aqui, era muito pequena. Tínhamos Manguinhos - o Instituto Oswaldo Cruz -, no Rio, apenas. Na época, as universidades não faziam pesquisa científica, apenas alguns institutos. É também um momento em que muitos países repensavam a ciência e como ela poderia ajudar a mudar as condições daquele período", explica a presidente da SBPC Helena Nader.
Em um primeiro momento, a sociedade levantou a bandeira da ciência e a importância de ela estar presente nas universidades. A ideia não era de competir com os institutos, mas, sim, agregar os cientistas para olhar a ciência e a educação e levar melhorias a esses campos. "Com o empenho da SBPC as universidades começam a ter força na sua produção de conhecimento", explica Helena. A entidade participou ativamente da criação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), assim como do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1951; da Universidade de Brasília (UnB), no início dos anos 1960, e da criação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 1985. "Sempre tivemos um papel político importante para a ciência e para a educação. A SBPC ajuda a institucionalizar a ciência e luta por políticas de longo prazo", conta. Ela lembra, ainda, que a sociedade também esteve à frente de discussões relevantes para o futuro do país como na Rio+20 e o novo Código Florestal.
Não à toa que a SBPC é uma entidade participativa. Criada por um grupo de cientistas renomados - entre eles Maurício Rocha e Silva, médico e farmacologista, descobridor da bradicinina, substância hoje largamente utilizada em medicamentos para o controle da hipertensão - a sociedade teve entre seus sócios renomados representantes da pesquisa científica nas áreas biológicas, exatas, humanas e tecnológicas. É o caso do educador Anísio Teixeira, o farmacologista Sérgio Henrique Ferreira (reconhecido internacionalmente pelas pesquisas que levaram ao desenvolvimento de remédios contra hipertensão e analgésicos antiinflamatórios), o físico Sérgio Mascarenhas Oliveira (professor visitante em diversas universidades dos Estados Unidos, México, Japão, Reino Unido e Itália) e o geneticista Warwick Estevam Kerr (um dos maiores especialistas em genética de abelhas do mundo). Hoje, 110 sociedades científicas estão associadas à SBPC e mais de 6 mil sócios, entre pesquisadores, professores universitários, estudantes e amigos da ciência. "E ainda podemos ser mais", deseja, Helena Nader.
O futuro da SBPC é a atividade em grupos internacionais dedicados à discussão - e à ação - de políticas para o avanço da ciência e da educação em todo o mundo. A sociedade já faz parte de um importante grupo, criado neste ano, com as principais instituições de países como os Estados Unidos, a China, a Europa e a Índia. A proposta do grupo é fazer com que temas de importância social para esses países sejam discutidos em cada uma de suas reuniões. "Queremos criar um documento a cada 2 anos", explica.
Fonte: Globo Cidadania